CFL @ 00:42

Qua, 24/01/07

Mais uma vez, no meio da prova e da presunção de inocência, algures entre o princípio in dubio pro reo e a estrutura acusatória do processo penal, uma ideia de viagem trouxe-me à memória outros momentos. À pressa procurei em armários cheios de pó a cassete que me refrescasse a memória. Do tempo em que ainda não havia DVD (e lá está, algures naquela história, a primeira vez que contactei com tal coisa). Do tempo em que ainda era ruiva. Do tempo em que não sabia o que era o processo penal. No tempo em que estava apaixonada pela ideia de o estar. Do tempo em que ainda não conhecia o lado mau do sonho. Quando era tão jovem e tão crescida me sentia. Quando, feliz, pensava no futuro risonho que a entrada próxima na faculdade me traria.

 

O tempo de hoje é igual. A viagem não será a mesma, o cabelo já não é ruivo (o castanho sempre dá uma maior aparência da responsabilidade profissional que se quer mostrar). A perspectiva de futuro é, uma vez mais, empolgante. Mas a inocência daqueles dias não está mais aqui para agradar. Perdi-a algures entre o processo penal, os títulos de crédito ou um ou outro impedimento impediente. A voz não é igual. A pronúncia das palavras só uma sombra do passado. Ao sorriso inocente substituiu o sarcasmo e ironia que me tolda os dias de trabalho. Que saudades daquelas horas de inocência! Cinco anos depois, apenas cinco anos depois e cinco anos é muito tempo. Encontro-me outra vez na mesma fase. O sonho é o mesmo mas as perspectivas, de tão reais que são, perderam a inocência daqueles dias.

(em Londres, Dezembro/2001)

 



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