CFL @ 02:27

Qui, 17/03/05

Perdoem-me os maus funcionários públicos. Mas já na Bíblia se separava o trigo do joio.

Não há nenhum empregado do Estado que não force o sorrisinho amarelo quando ouve falar de si.

_ Ahh... Esses preguiçosos!! Não fazem nada o dia inteiro! _ começa a sra. Maria que já está à espera que a atendam há 30 minutos sem se sentar. E que ainda por cima é diabética. Não pode estar muito tempo naquela fila demoníaca.

_ Vem uma pessôa práqui... já tô aqui há 5 horas e estes gajos não me querem preencher o IRS!! _ responde o sr. Albertino, de cigarro ao canto da boca, passando nervosamente as facturas da farmácia, do colégio privado das três criancinhas (coitadinhas!), do banco a provar que depositou os 600 euros na CPH e, já agora, também do computador novo que comprou para a sua mais velha ("Já não entra este ano?? Éh lá... com essa é que eu não contava! Sempre são menos umas lecas... e a vida agora está tão difícil... o colégio dos putos sempre a aumentar!"

_ São o mal do país!! Isto não anda por causa deles! _ finaliza, de nariz torcido, a dra. Sofia, advogada, que desta vez não conseguiu convencer ninguém de que o IRS não era dela mas sim do seu cliente e por isso não consegue passar à frente e ali ficará, ao pé de tanta gentinha, mais umas boas 3 horas.

Mas afinal de quem é a culpa? É do Cavaco que inventou o IRS? É do regime da função pública? É da organização dos serviços do Estado? É de Deus? É do Diabo?

Chega a hora de separar o trigo do joio: há o funcionário que entra às 9:12h quando devia entrar às 9h, que faz uma pausa para o cafézinho matinal às 10:30h em ponto e só volta às 12h, saindo depois às 12:27h quando só devia sair às 12:30h ("O que é que são três minutinhos? Assim sempre chego mais cedo ali à tasca do Manel e ainda bebo mais umas jolas!"). Regressa às 14:05h, a cheirar a álcool depois de 3 jolas, 2 copos de tintol e um digestivozinho, atende contribuintes até às 16:15h ("Ai, ai, que já passa da hora de fechar!"), e depois discute o jogo do Benfica ("Ah! Aquilo é que foi! Este ano somos campeões!") até às 17:30h, quando, qual pulga saltitona, se levanta e vai para casa, extenuado, coitado, por ter um emprego tão mau.

Depois, há o funcionário público que chega à repartição às 8:30h, faz uma pausa às 10h e volta às 10:15h. Fica a trabalhar até às 13h (lá se foi a hora de almoço...), às 14h já lá está e só sai já as 17:30h passaram há muito. E depois chega a casa preocupado porque não fez aquele ofício, porque não respondeu àquela reclamação, porque quem lhe dera ter mais formação para melhor fazer o seu trabalho.

Há quem não acredite que o segundo existe, nunca viu nenhum... o funcionário público trabalhador é como um pilhão - há milhões deles espalhados por aí mas nunca ninguém viu nenhum! Acreditem ou não, eu já vi. Os dois. O bom. E o mau.

Mas o bom ganha mais que o mau? Não. Por acaso o mau até é mais velho por isso ganha mais (a antiguidade é posto, não sabiam?)... mas para quê chatear-se? Mais meia dúzia de anos e pede a reforma...



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