CFL @ 02:25

Sab, 10/11/07

Há alguns dias, num jantar, senti um olhar reprovador sobre mim, de como quem diz: tu não és uma pessoa apaixonada! Não sei se é verdade. Mas sou essencialmente prática. Sim, o sol é bonito e há coisas que encantam. Se não fosse assim também não valia a pena viver. Mas não fui feita para o amor e uma cabana nem para aquele aconchego tradicional de fim-de-semana. No fundo, quando duas pessoas essencialmente práticas se juntam é assim. Mas minha amiga C., agora que arranjei 10 minutos desta noite para aqui escrever, vou-te provar que eu também sei o que é a paixão. Nos próximos posts segue um livro inacabado escrito há alguns anos, que publicarei aqui capítulo a capítulo. Modéstia à parte, é preciso coragem para mostrar que já fui assim. Mas fui. Se calhar, no fundo, ainda sou. Mas sou uma pessoa essencialmente prática. Segue a transcrição do que foi escrito em 11 de Abril de 2002. Aviso que é literatura de cordel.

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ÀS VEZES

 

C. S. F.

 

     Às vezes, a realidade consegue ultrapassar a própria ficção. Quantos não viram já a sua vida transformar-se num verdadeiro romance cor-de-rosa ou numa tragédia clássica, cheia de phatos e com direito a um climax da acção verdadeiramente surpreendente?

     Mas jamais alguma tragédia ou romance consegue atingir a perfeição da vida real. Uma perfeição na sua forma imperfeita mas cheia de cor e de dor, de amor e de sombra, cheia de vida.

     E porque a ficção se mistura com a realidade, é impossível afirmar plenamente se estamos perante um romance tirado da mente do Homem ou se temos à nossa frente uma história arquitectada pelo Destino. Não é a mim que compete dizê-lo. Deixo a cada um a liberdade e imaginação, mas principalmente, astúcia, para tirar as suas próprias conclusões.

Capítulo I

 

     É agora. Desta vez vou mesmo começar a escrever. É de tarde, são sete horas, uma tarde soalheira. Agora chove e é incrível. A chuva chegou mesmo a tempo para condizer com o meu coração que chora. Abril, mês de chuvas, mês de mentiras, um mês místico... ainda nada acabou, mas tudo irá acabar. Sei que sim. Pressinto-o. Estamos a chegar ao fim.

     É estranho começar uma história declarando para quem quiser ouvir que "estamos a chegar ao fim". Mas como a história que vou contar é uma analepse, não mais que uma recordação (sim! E agora como sei que não será mais que uma doce recordação, misturada com fel, recordação doce e azeda de uma história que já azedou com todo o azedume com que por vezes foi vivida), importa dizer que hoje sinto que tudo acabou. Porque o vi. Com ela. E ela pegou-lhe na mão da mesma maneira como eu antes fizera. Ela tocou-lhe a pele como eu mesma toquei naquela tarde de verão. E voltará a fazê-lo, como eu nunca voltei.

     De que estou a falar? Da vida, do amor, de um nada que é tudo. Estou a falar do primeiro amor - aquele que nunca esquecemos - e que fica connosco, ao nosso lado, guardado para sempre num canto tão profundo da nossa alma que nem as aranhas conseguem tecer teias, nem a humidade consegue destruir, nem nós próprios conseguimos limpar... estou a falar daquele amor pelo qual fazemos tudo. Aquele que nos faz ter as reacções mais rídiculas de todas. Existirá um amor mais ridículo que o primeiro? Mas quanto mais ridículo ele é, mais marcas nos deixa, mais o sentimos, mais muda a nossa vida. E este mudou a minha. Para sempre, um sempre que acaba hoje, com a minha vida mudada, apesar de nunca, mas nunca mais, sentir as suas mãos, grandes, firmes, de traços bem definidos, tocarem novamente nas minhas. Agora as suas mãos são dela. Agora o coração que nunca foi meu, senão num engano esquecido no tempo, mas recordado em ambas as almas, está com ela, pertence-lhe a ela. Não a mim. Eu não sou ninguém. Mas ele também não. Não somos, não fomos, não seremos. Éramos um futuro prematuramente acabado. Nós não existe. Existo eu, que não sou ninguém, que o era menos ainda antigamente. Existe ele, para quem não sou ninguém. Existe ela que me parece ser tudo para ele.

     Às vezes... às vezes, não! Sempre! Lembro-me sempre de ti, sempre que acordo, assim que me deito. Foste o combustível que me fez viver... melhor ainda! Que me deu vida! Que me deu vida quando a começava a perder. Durante meses, meses que me pareceram anos, escassos meses nos quais posso resumir toda a minha vida como se antes não tivesse vivido, foste o sol que me fazia acordar de manhã, foste um motivo, foste um meio e um fim para atingir o meio. Foste tudo. Desde aquela tarde de Agosto, sem sol, a ameaçar chuva, fria, em que me aqueci nos teus braços, que me deste vida, que foste a minha vida. Não te lembras, amor? Ainda te recordas como fomos? O que fomos? Para ti nunca fomos nada. Nunca existimos. Para mim fomos tudo poque tu comigo construíste as bases da minha vida. Se agora não sou ninguém, antes não era nada. Amaste-me alguma vez? Não. Se eu te amei? Como poderia não o fazer? Foste tu quem me ensinou a amar-me a mim própria, e se não te amasse como saberia amar-me? Porque tu és igual a mim.

     Já não sei nada, não tenho certezas. Às vezes pareces-me ser assim. Às vezes pareces ser apenas uma sombra, nada mais que uma sombra que me ensombrou o outono, o inverno, este início de primavera... Às vezes nem eu própria sei o que sinto, porque sinto o que sou, sinto o que não és. Às vezes nem mesmo sei o que escrevo. Mas escrevo com o coração. E se escrevo com o coração estou-te a escrever a ti. Porque tu, pelo menos hoje, nesta tarde em que agora chove, és o meu coração. Às vezes parece-me que sempre o foste, que sempre o serás, mesmo que ela te toque na mão e te leve com ela para o mesmo banco de jardim em que nós estivemos, um dia, há tão pouco tempo que me parece uma vida, juntos. Às vezes parece-me que nunca foste o meu coração. Que não passas de um instrumento de uma força divina, a quem tu chamas Deus, enviado para me salvar - nesse caso foste (ou és) um anjo. Mas que anjo? Mas que Deus? Mas que instrumento? Às vezes, não passas de um nada. Quem sou eu para merecer o esforço divino? Quem és tu para seres o instrumento dessa divindade? És simplesmente a pessoa que me ensinou a amar, que me provou que o amor não é racional, que nunca viveremos uma vida inteira na racionalidade objectiva da vida, analisando a vida como simples espectadores de uma vida que é nossa, mas não nos pertence. És apenas um rapaz que já muitas vezes, vezes demais, amou sem nunca realmente amar. Precisas tanto de um anjo que te ensine a amar como eu precisava antes de ti. Sim. Neste caso foste o meu anjo, foste o meu professor, foste um guia. Mas eu não quero que ela seja o teu anjo, que ela te ensine a amar. Porque é que não podemos aprender juntos a amar? Tu já me ensinaste um bocadinho, mesmo sem saberes a matéria que leccionavas, sem dares por isso. Porque é que não aprendeste também? Se foste o meu instrutor divino, porque não posso também ser a tua professora? Porque a vida é assim. Porque o destino é mau. Porque o teu destino, o teu papel na novela da minha vida já se cumpriu. Pelo menos, acredito nisso, hoje... foi a chuva que trouxe as lágrimas claras da racionalidade da descoberta. Porque o amor não é uma certeza. Porque tu não passas de um rapaz. Porque tu és simplesmente... o R.

     Mas eu não sou a Laura de Petrarca, nem a Ofélia, nem Inês de Castro. Não sou Vénus, nem Lídia do Ricardo Reis. Não sou nada para merecer o esforço de qualquer força divina. Mas porque existo sou tudo. Somos tudo só por existirmos. Só por ser mereço o esforço de toda a energia do Universo. Mas por isso tu também mereces. Tu e a mulher que agora passa à chuva na rua. E o homem que amanhã passará aqui a passear o cão, de olhos perdidos, pensativo, quem sabe a recordar um amor também perdido. Já disse! Somos tudo e não somos nada. Já disse, não digas mais! Sou tua aluna, ensinaste-me a amar. Sou simplesmente um coração, uma alma reduzida a quase nada porque tu só me ensinaste, não me amaste. Possivelmente nunca. Eu sou simplesmente quem te amou durante meses e te vai continuar a amar (porque o primeiro amor fica para sempre naquele recanto de alma sem humidade nem teias de aranha). Sou simplesmente uma rapariga. Uma rapariga que sabe hoje que não tem toda a sabedoria do seu nome... Sofia.

 

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Sim, minha amiga C., fui eu quem escreveu isto aos 16 anos.

 


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marcos @ 18:21

Dom, 11/11/07

 

Olá, Amiga C.

1.º Um pequeno comentário e um grande passo para a humanidade.
1.1) LOL

2.º Apesar de ser um fiel detentor desta literatura de cordel (gentilmente cedida) e de não ter muito tempo para a ler, fiquei encantado com a sua escrita precoce. Você tem um dom.

3.º Há qualquer coisa nos diálogos das amigas C que não bate certo, mas ok?

4.º Paixão não existe, porque nós só ficamos apaixonados por uma ideia de pessoa. Sentimos afinidade com uma ideia, mais nada.

5.º Ainda bem que és uma pessoa prática, então, deves conhecer a facilidades do botão "delete it".

Bjs! Apesar de não me rever na história de Sofia, vou continuar a ler de forma interessada. Tu já pensaste ir à caça??!

P.S: Gosto muito da sua maneira de ser agora, mas não me importava de conhecer aquela Sofia. Faz me lembrar um pouco eu... um ser essencialmente prático e altamente alto... mais precisamente 1,88m LOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOL
Hoje estou mt Xircon... Viva o Sporting!!!!!!!

marcos @ 18:23

Dom, 11/11/07

 

A sofia terá sofrido uma e-volução semelhante à minha... NÃO ME REVEJO NA HIST

Zeta @ 20:54

Dom, 11/11/07

 

Sim miga, és uma pessoa especial... Depois de ler isto só consigo pensar que és especial, o que não é nada que eu não soubesse já miga. És especial porque o teu nome começa por C, és especial porque o teu segundo nome é Sofia, és especial por seres do sexto signo do Zodiaco... Parece-me que conheço mais alguém com todas estas caracteristicas. Hum... Já sei, sou eu!! Será que também sou especial?! ;) Não tanto como tu com toda a certeza minha amiga. Porque o que faz de ti um ser especial para mim é simplesmente seres tu. Retiro o que disse, retiro o que o meu olhar te disse miga: sim, tu és uma pessoa apaixonada, tu já viste o mundo com eu o vejo, e se agora não o vês foi porque assim decidiste, mas fiquei hoje a saber que também tu já viste um mundo sob um filtro cor-de-rosa... E sim miga, Abril é um mês místico...

Mark @ 23:08

Dom, 11/11/07

 

Será que a cor do meu filtro é laranja? E se eu for daltónico, qual é a cor do meu filtro? Nunca saberei, serei por isso um ser triste e errante que caminha pela terra sem saber as cores. Se calhar a verdadeira cor do meu filtro seja azul às bolinhas amarelas... eu vi um bikini... tenha calma nao vou cantar. Beijo grande para vocês. Cátia, para mim, tu és excepcional, só porque não comportas aplicação analógica. Era muito bom que o teu bom senso permitisse uma interpretação extensiva a algumas pessoas. Ai Ai sou tão inteligentes que até emprego palavras como "excepcional" e "analógica" num texto corrido . Eu devo andar a estudar imenso e a me divertir muito pouco.. LOL

tania @ 11:51

Dom, 25/11/07

 

Amiga, adorei...
Realmente nunca se esquece o primeiro....
é algo que fica connosco, mas felizmente a vida dá-nos outros amores...
Continua...

mark @ 00:00

Seg, 10/12/07

 

Viva o divórcio e o alzaimer ou parkinson... watever aquela que dá para esquecer :P

cadeiradopoder @ 21:26

Qui, 06/12/07

 

No fundo penso que ainda será como se descreve no livro. É tudo uma questão de expressão, e não de sentimento

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