CFL @ 00:12

Sex, 14/04/06

Eu não queria. Tinha até prometido ao mais íntimo do meu ser que não me pronunciaria sobre questões religiosas. Mas afinal é impossível (também porque o estudo das religiões - quaisquer que sejam - sempre me interessou). Peço desculpa, mas isto vai ser longo...

 

Numa pequena viagem à minha infância, tenho de confessar que andei 4 anos na catequese. Que fiz a 1.ª comunhão. Mas sempre me pareceu demasiada obscura a imagem de um jovem de barbas e de tanga dependurado numa cruz, barbaramente trespassado por setas. E sempre que me pareceu demasiada obscura a ideia de esperar pacientemente por uma ressurreição (quem sabe, comodamente acomodado no caixão), num dia, que se imaginava daí a muitos milhares de anos, em que anjos com arpas, cornetas e afins acordariam todos os justos e deixariam para trás os pecadores, entregues a uma eternidade de sofrimento numa cave decorada a encarnado e com o ar condicionado avariado.

 

E (graças a Deus!) sempre tive um cérebro. Pior... sempre tive um cérebro provido de razão. E cérebros providos de razão (ou não) procuram sempre algo que os alimente. E depois há os livros de história, há os livros de ciência, e os jornais, e a internet. Mas acima de tudo há a minha própria cabeça.

 

E a minha própria cabeça aprendeu a pensar sozinha. E a perceber que o catolicismo foi construído em cima de outras religiões mais antigas, numa espécie de copy-paste mal amanhado. Antes do Natal, havia a festa do solstício, antes da Páscoa, havia o equinócio. E seguindo sempre assim, colando indecentemente uma festa sobre a outra, em quase todos os santos momentos católicos. E também isto aconteceu com todos os objectos de devoção... quem é Nossa Senhora senão a versão católica da Deusa adorada pelos celtas?

 

Se isto é um fenómeno de aculturação, mais grave é o fenómeno de embrutecimento das mentalidades. Se no séc. XIII, no meio de todas aquelas trevas e ignorância, era compreensível o temor e adoração à Igreja (afinal, é nela que a civilização ocidental se funda) - não podemos esquecer que as missas eram em latim, numa altura em que já ninguém sabia o que era isso - no séc. XXI, no meio de toda esta informação, já ninguém tem medo da Igreja. Quem quiser pode pôr o cérebro a funcionar e decantar a origem de cada pecado, a origem de cada proibição católica (basta referir que a castidade pré-matrimonial servia simplesmente para garantir que a pobre donzela não deixasse descendentes indignos à sua hereditariedade).

 

E após um breve momento de quase racionalidade, é agora, no séc. XXI que a Igreja se começa a virar novamente para a inquisição. Desde a ridícula tentativa de impor um sentimento ao medo claro de que os pobres católicos comecem a pensar por si, a Igreja afunda-se lentamente no fundamentalismo católico. Fraco. Mas igualmente preverso (já muitas vezes o veneno foi santo e calou inquietações).

 

Só resta a esperança numa sociedade esclarecida (que por vezes me parece distante quando vejo milhares de jovens - que se queriam esclarecidos - a gritar por Ratzinger na praça de S. Pedro), que sabe pensar por si, que sabe ser ética e que tem valores.

 

Porque, afinal, os valores são inerentes ao Homem, são filosofia. Não me serão ditados por alguém que se diz mais perto de Deus do que eu, sem explicar porquê e sem me mostrar uma carteira profissional assinada pelo seu chefe "Sr. Deus".



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