CFL @ 23:01

Ter, 30/08/05

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

(...)

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

(...)

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

                                       Manuel Alegre

 

O vento passa e parece que os políticos ressuscitam. Qualquer Homem de bom senso, que se procura marcar através da ida dos tempos deve saber surgir. Deve saber trabalhar e defender a sua causa. E deve saber quando chega a hora de abandonar. Os sensatos sabem. Outros não...




CFL @ 02:05

Sab, 13/08/05

O que está na moda é trabalhar para uma empresa de trabalho temporário e o Gumercindo foi-se inscrever numa empresa de trabalho temporário que prima pela honestidade, transparência e rigoroso cumprimento da legislação.

Inscreveu-se porque lhe meteram uma cunha para prestar uns serviços a uma Direcção-Geral de um certo ministério português. Na verdade, já tinha feito o mesmo trabalho para aquela Direcção-Geral noutros anos: no ano passado até lhe pagaram 600 euros por mês! E este ano, feliz por a cunha resultar tão bem, preparava-se para mais uns mesitos a trabalhar ali, pago directamente pela Direcção-Geral em troca de uns recibitos verdes.

Mas num lindo dia de sol recebeu um telefonema de uma empresa de trabalho temporário. Naquele ano tudo tinha mudado. Era a empresa que lhe ia pagar, já não era a Direcção-Geral. E porque a inflação era muito grande este ano teria o prazer de receber 347 euros de ordenado base mais o subsídio de alimentação! Gumercindo saltou de alegria! A perspectiva de receber (feitas as contas com os subsídios e os descontos para a Segurança Social) a grande quantia de 495 euros por mês para fazer o mesmo trabalho, no mesmo sítio, que tinha feito no ano anterior por apenas 600 euros era, sem dúvida, aliciante. E lá foi ele, arregaçando as mangas e disposto a servir o Estado.

O trabalho prolongou-se por mais duas semanas para além do contratado. A Direcção-Geral garantiu-lhe que lhe pagariam essas duas semanas como lhe fora pago o trabalho prestado durante o prazo do contrato. Gumercindo confiou plenamente. Afinal, a empresa de trabalho temporário era honesta, transparente e, acima de tudo, cumpria a lei!!

Quando recebeu, por fim, o último vencimento alegrou-se: afinal, tinham-lhe depositado menos 100 euros do que lhe deviam. Para ter a certeza de que estava tudo bem (não queria ficar com mais dinheiro do que devia) ligou para a empresa de trabalho temporário: às 10h, o responsável não o podia atender porque estava em reunião. Às 12h também não podia porque estava de férias há 15 dias em Madagáscar. Ao fim de algumas tentativas tudo lhe foi explicado: é que as últimas duas semanas foram pagas à hora. Ahhh!

Gumercindo, feliz, por ter recebido quase o mesmo do que se não tivesse trabalhado mais duas semanas foi de férias para a praia de Carcavelos e está desejoso de voltar a trabalhar com aquela empresa de trabalho temporário.

Entretanto ouvira uns boatos maldosos: dizia-se à boca curta que a empresa pertencia a um dos grandes da Direcção-Geral para a qual trabalhou. Gumercindo nunca acreditou naqueles boatos, afinal, isso só serviria para roubar dinheiro ao Estado!

NB: Este conto não é ficção! Passou-se este ano em Portugal. Por razões obvias as personagens não estão identificadas, apesar de não faltar a vontade de dizer bem alto quem são.



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