CFL @ 17:26

Qui, 27/04/06

O Sr. António saiu contente para o calor de Abril naquela hora de almoço ensolarada. Já estava a trabalhar desde as 9:20h e o estômago começava a dar sinais de uma pequena necessidade de comer uma grande feijoada ali na Tasca do Zé, mesmo ao lado do escritório.

 

Entrou na tasca feliz, lá pediu a sua feijoada - bem servida - e enquanto petiscava umas moelas acompanhadas de um belo tintol dava uma olhadela ao que passava na televisão pendurada na parede de azulejo. Ficou mal disposto quando soube que a Galp aumentou os preços da gasolina (e a carripana cada vez consome mais), riu-se por o túnel do Marquês continuar parado, irritou-se com o grande tacho do Banco de Portugal, mas essencialmente revoltou-se com o castigo do Sá Pinto. Quando ouviu que o Primeiro-Ministro ia fazer mais uma reforma, desta vez às reformas, pensando ter chegado ao intervalo por causa de tanta publicidade enganosa, só lhe apeteceu dizer...

 

- Zé! Sai mais uma rodada práqui (antes que vomite os feijões)!

 




CFL @ 17:06

Ter, 25/04/06

 

 

É inevitável. É preciso falar de hoje. É preciso pensar o que o dia de hoje, há tão pouco tempo atrás, nos deixou. Não foi só uma Constituição... foi o poder sair à rua, foi o poder falar. A liberdade para aprender e pensar... a liberdade para ser.

 

Deixo aqui um pequeno exercício de comparação entre dois regimes...

 

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

DE 11 DE ABRIL DE 1933

 

Artigo 5.º

§ único - A igualdade perante a lei envolve o direito de ser provido nos cargos públicos, conforme a capacidade ou serviços prestados, e a negação de qualquer previlégio de nascimneto, nobreza, título nobiliárquico, sexo, ou condição social, salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família e, quanto aos encargos ou vantagens dos cidadãos, as impostas pela diversidade das circunstâncias ou pela natureza das coisas.

 

Artigo 8.º

§ 2.º - Leis especiais regularão o exercício da liberdade de expressão do pensamento, de ensino, de reunião e de associação, devendo quanto à primeira, impedir preventiva ou repressivamente a perversão da opinião públicas na sua função de força social, e salvaguardar a integridade moral dos cidadãos (...).

 

Artigo 11.º

O Estado assegura a constituição e defesa da família, como fonte de conservação e desenvolvimento da raça (...).

 

Artigo 12.º

A constituição da família assenta:

1.º - No casamento e filiação legítima;

§ 2.º - É garantida aos filhos legítimos a plenitude dos direitos exigidos pela ordem e solidez da família, reconhecendo-se aos ilegítimos perfilháveis, mesmo os nascituros, direitos convenientes à sua situação (...).

 

Artigo 13.º

Em ordem à defesa da família pertence ao Estado e autarquias locais:

5.º - Tomar todas as providências no sentido de evitar a corrupção dos costumes.

 

Artigo 17.º

Pertence privativamente às famílias o direito de eleger as juntas de freguesia.

§ único - Este direito é exercido pelo respectivo chefe.

 

Artigo 39.º

Nas relações económicas entre o capital e o trabalho não é permitida a suspensão de actividades por qualquer das partes com o fim de fazer vingar os respectivos interesses.

 

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

DE 2 DE ABRIL DE 1976

 

Artigo 13.º

1 - Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

2 - Ninguém pode ser previlegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascedência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

 

Artigo 21.º

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

 

Artigo 26.º

1 - A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação.

 

Artigo 36.º

3 - Os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à capacidade civil e política e à manutenção e educação dos filhos.

4 - Os filhos nascidos fora do casamento não podem, por esse motivo, ser objecto de qualquer discriminação (...).

 

Artigo 37.º

1 - Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.

2 - O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.

 

Artigo 41.º

1 - A liberdade de consciência, de regilião e de culto é inviolável. (...)

 

Artigo 48.º

1 - Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país (...).

 

Artigo 49.º

1 - Têm direito de sufrágio todos os cidadãos maiores de dezoito anos (...).

 

Artigo 57.º

1 - É garantido o direito à greve. (...)

 

E muito mais haveria a dizer e a comparar. Mas deixo apenas a memória àqueles que viveram o primeiro, que muito mais do que palavras, sabem o que sentiam.

 

E deixo apenas o arrepio àqueles que, como eu, já nasceram como cidadãos iguais e livres, ao pensar no que seriam hoje, se naquela madrugada não se tivesse ouvido E depois do adeus...




CFL @ 19:42

Qui, 20/04/06

"A lei da paridade foi esta quinta-feira aprovada (...). A Lei da Paridade, da autoria do PS, obriga os partidos a incluir pelo menos um terço de mulheres nas listas para eleições legislativas, autárquicas e europeias."

Fonte: Diário Digital / Lusa

 

É como mulher que falo. E é como mulher que sei que não estou sozinha. É como mulher que me sinto ofendida.

 

30 anos de Constituição e, em vez de uma aplicação correcta, cada vez é mais subvertida. A intenção é boa, no seu íntimo, é socialista. Não é democrata. Votar-se-á por votar, não pelas qualidades das listas, não pelo bom ou mau serviço que as candidatas poderão prestar ao país. Votar-se-á apenas porque são mulheres. Nada mais interessa. Representantes do povo que não serão mais do que o seu próprio sexo e só por causa dele o são. Nunca me senti tão ofendida nos meus direitos como cidadã.

 

Também, se fosse uma verdadeira lei da paridade, não seria apenas um terço de mulheres. Seria metade (afinal só há homens e mulheres, dois sexos. Se iguais, cada um devia traduzir metade das listas). E se fosse uma lei para garantir uma representatividade real, devia prever um número maior de mulheres do que de homens (afinal, há mais mulheres do que homens).

 

Assim, só posso concluir que esta lei é pura demagogia.




CFL @ 15:18

Qua, 19/04/06

A isto deve juntar-se uma ordem que obriga os professores doentinhos a voltar imediatamente à escola de origem (nem que seja a 300 quilometros de distância), muito descontentamento dos senhores polícias, que pode ultrapassar fronteiras (quando até já nem os guardas prisionais têm trabalho) e o já velhinho confronto com os tribunais.

 

E assim se vai construindo uma ditadura de esquerda.


sinto-me:


CFL @ 00:12

Sex, 14/04/06

Eu não queria. Tinha até prometido ao mais íntimo do meu ser que não me pronunciaria sobre questões religiosas. Mas afinal é impossível (também porque o estudo das religiões - quaisquer que sejam - sempre me interessou). Peço desculpa, mas isto vai ser longo...

 

Numa pequena viagem à minha infância, tenho de confessar que andei 4 anos na catequese. Que fiz a 1.ª comunhão. Mas sempre me pareceu demasiada obscura a imagem de um jovem de barbas e de tanga dependurado numa cruz, barbaramente trespassado por setas. E sempre que me pareceu demasiada obscura a ideia de esperar pacientemente por uma ressurreição (quem sabe, comodamente acomodado no caixão), num dia, que se imaginava daí a muitos milhares de anos, em que anjos com arpas, cornetas e afins acordariam todos os justos e deixariam para trás os pecadores, entregues a uma eternidade de sofrimento numa cave decorada a encarnado e com o ar condicionado avariado.

 

E (graças a Deus!) sempre tive um cérebro. Pior... sempre tive um cérebro provido de razão. E cérebros providos de razão (ou não) procuram sempre algo que os alimente. E depois há os livros de história, há os livros de ciência, e os jornais, e a internet. Mas acima de tudo há a minha própria cabeça.

 

E a minha própria cabeça aprendeu a pensar sozinha. E a perceber que o catolicismo foi construído em cima de outras religiões mais antigas, numa espécie de copy-paste mal amanhado. Antes do Natal, havia a festa do solstício, antes da Páscoa, havia o equinócio. E seguindo sempre assim, colando indecentemente uma festa sobre a outra, em quase todos os santos momentos católicos. E também isto aconteceu com todos os objectos de devoção... quem é Nossa Senhora senão a versão católica da Deusa adorada pelos celtas?

 

Se isto é um fenómeno de aculturação, mais grave é o fenómeno de embrutecimento das mentalidades. Se no séc. XIII, no meio de todas aquelas trevas e ignorância, era compreensível o temor e adoração à Igreja (afinal, é nela que a civilização ocidental se funda) - não podemos esquecer que as missas eram em latim, numa altura em que já ninguém sabia o que era isso - no séc. XXI, no meio de toda esta informação, já ninguém tem medo da Igreja. Quem quiser pode pôr o cérebro a funcionar e decantar a origem de cada pecado, a origem de cada proibição católica (basta referir que a castidade pré-matrimonial servia simplesmente para garantir que a pobre donzela não deixasse descendentes indignos à sua hereditariedade).

 

E após um breve momento de quase racionalidade, é agora, no séc. XXI que a Igreja se começa a virar novamente para a inquisição. Desde a ridícula tentativa de impor um sentimento ao medo claro de que os pobres católicos comecem a pensar por si, a Igreja afunda-se lentamente no fundamentalismo católico. Fraco. Mas igualmente preverso (já muitas vezes o veneno foi santo e calou inquietações).

 

Só resta a esperança numa sociedade esclarecida (que por vezes me parece distante quando vejo milhares de jovens - que se queriam esclarecidos - a gritar por Ratzinger na praça de S. Pedro), que sabe pensar por si, que sabe ser ética e que tem valores.

 

Porque, afinal, os valores são inerentes ao Homem, são filosofia. Não me serão ditados por alguém que se diz mais perto de Deus do que eu, sem explicar porquê e sem me mostrar uma carteira profissional assinada pelo seu chefe "Sr. Deus".



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