CFL @ 01:58

Sab, 30/12/06

Percorro com a pequena seta páginas e páginas de sonhos. Olho imagens de ambição e conforto e em cada requisito, sem falsa modéstia, vejo-me descrita. O coração bate mais forte por este motor de sonhos. A pulsação raia valores de excitação (triste loucura a minha?). Às vezes a gulodice profissional faz salivar e uma folha de papel mate onde impressiono o que não sei se sou é um passaporte para o êxtase. É tudo sonho. E perfeito. É tudo sonho e, por defeito, não consigo parar de sonhar. E de acreditar.
 
Em 2007 não serei igual. Os fatos não poderão ser amarrotados como noutros momentos. E terei de procurar dentro de mim uma força que julgo ter mas não conheço. Dar tudo por tudo e esgotar baterias. Relembrar aptidões de outrora. Conseguir.
 
E daqui a um ano, no mesmo lugar, depois de 2007 não sou mais a mesma. Concretize-se o sonho que começo a sonhar. Ou que consiga apenas começar.
 
 
O Sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade.
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.
 
 
(Fernando Pessoa, Mensagem – Horizonte)
 
 
 
 



CFL @ 01:25

Seg, 25/12/06

O Sr. António levantou-se cedo, embrulhou os últimos presentes e foi para casa da sogra. Passou depois a tarde inteira em alegres discussões com os cunhados e primos sobre política e futebol enquanto emborcava várias bejecas e a azáfama da cozinha aumentava entre uma filhós e um pudim de manga, as farófias e o IVA do Bolo Rei (o que dirá o Presidente da República disto?!).
Pouco antes da meia-noite – porque os putos não se calavam – lá começou a rasgar embrulhos (“Não estraguem o papel que fica para o ano!” – implorava a sogra) e daí saltitaram relógios e garrafas de J&B, umas meias aos quadrados e um DVD pirata. Nada mal, ao menos a mulher gostou da toalha bordada que lhe deram e do perfume Tobby Hilfiger comprado no chinês. Depois o sogro apagou as luzinhas da árvore de Natal e mandou todos para casa, que já estava farto de os ouvir. Amanhã há mais ao almoço e misturado com o peru e o lombo de porco com castanhas, vozes roucas pelas conversas de hoje continuarão as discussões temperadas por muita teimosia. No fim voltam para casa, com duas notas de 50 euros enfiadas à socapa no bolso pela sogra e felizes por terem passado mais um Natal em família.

sinto-me: Natalícia
música: A Todos Um Bom Natal


CFL @ 17:31

Seg, 11/12/06

O Sr. António foi operado aos rins e por isso esteve de baixa durante 2 meses. Ao voltar ao seu local de trabalho – quer por acaso é um órgão do Estado – deparou-se com duas situações tão surreais mas igualmente tão habituais que já devia estar habituado. Mas como o Sr. António foi operado aos rins e a memória é curta, já não se lembrava.
 
Situação surreal n.º 1:
O Sr. António, que até é chefe, telefona para os serviços centrais daquele Ministério para onde trabalha, para pedir uma nova password para um funcionário.
- Estou?! Eu queria pedir uma password para…
- Ah, isso não é comigo! Vou passar ao colega! - Trim Trim Trim Trim, chama o telefone sem resposta durante dez minutos. Eis senão quando a chamada volta à primeira senhora:
- Ó colega! O meu colega ainda não atendeu?!
- Não!
- Ah, é que ele hoje não ‘tá p’a atender os telefones! É melhor ligar amanhã!
- Amanhã? Mas…
- Só se eu lhe der número directo!
E o Sr. António tenta o número directo… - Trim Trim Trim Trim… Duas horas depois, continua o número directo… Trim Trim Trim Trim
 
Situação surreal n.º 2:
O Sr. António liga para o Centro de Cultura e Desporto daquele Ministério para saber pormenores sofre a festa de Natal.
- Estou? É do Centro de Cultura e Desporto?
- Não! É do CCD!
- Ah, é que eu queria saber como é a festa de Natal…
- Ah, isso não é comigo! Pii, pii, pii, pii
 
 



CFL @ 21:23

Sex, 01/12/06

 
«Começam a revelar-se os factos que parecem ter alterado o destino português. As reuniões de fidalgos realizaram-se no palácio de D. Antão de Almada, ao Rossio (…).
 
«Esta manhã compareceram no Terreiro do Paço, ocultando as armas sob as roupas, e ao tocar das nove assaltaram subitamente o palácio, derrubando tudo quanto se lhes tentou opor.
 
«Rebuscaram na sala do secretário Miguel de Vasconcelos e encontraram-no escondido num grande armário de madeira, onde o executaram sem qualquer troca de palavras. O corpo foi arremessado pela janela para a praça (…). Logo um sem-número de mendigos se lançou sobre ele (…).
 
«Entre o início do assalto e a proclamação do novo rei ao povo mediou um quarto de hora. Assim cai um regime.»
 
«A revolução de Lisboa foi abraçada, com entusiasmo, em todo o país. A província do Alentejo foi a primeira a aderir. (…) Em Coimbra, as cartas idas de Lisboa despertaram o maior entusiasmo. Os estudantes juntaram-se no pátio da Universidade e foi ali que, no dia 6, aclamaram o rei, entre grandes manifestações de júbilo. (…) Em Santarém, fidalgos, clero e povo aclamaram o rei, num grande cortejo cívico que percorreu as ruas da vila. O mesmo sucedeu em Leiria (…). No Porto, a aclamação fez-se no dia 8 (…). As notícias do Porto chegaram a todas as vilas e cidades do Minho, Douro e Beiras e em todas houve verdadeiras explosões de alegria. (…) Em Salamanca mais de quatrocentos estudantes portugueses saíram da cidade em direcção à fronteira portuguesa, gritando pelas estradas: “Viva El-Rei D. João IV!” (…)»
 
                           In «Diário da História de Portugal»,
                           José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra
                           Selecções do Reader’s Digest, 1998
 
 
Há 366 anos um país inteiro festejava unido a restauração de uma independência perdida durante 60 anos. Hoje…


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